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Boletim informativo Março de 2013 ~ OS ÍNDIOS PATAXÓ HOJE

Saia índia: saia tradicional de palha e sementes

Saia índia: saia tradicional de palha e sementes


A situação dos autóctones no Brasil continua crítica. Várias comunidades continuam sendo perseguidas e expulsas de sua terra natal por fazendeiros que reivindicam seu direito de propriedade ou pela construção de grandes barragens hidrelétricas na Amazônia, por exemplo. Uma outra ameaça paira sobre essas comunidades: a perda de sua identidade cultural, sobretudo no caso das novas gerações. A maioria dos 14.000 índios pataxós vive no extremo sul da Bahia e uma minoria em Minas Gerais. Os Pataxós estão reunidos em 23 aldeias.

Paty com seu cocar de penas

Paty com seu cocar de penas


PATY, O ESPECIALISTA EM INTERNET

« Acreditamos na força do Arco Digital e sabemos os caminhos de valorizar a nossa na rede » Ponto de Cultura de Aldeia Velha – Paty, o especialista em internet nos conta: “Há anos estamos trabalhando para valorizar a cultura Pataxó através de nosso centro cultural e de nosso site Muká Mukaú (que em língua Patxohã significa unidos, reunidos). Os resultados são palpáveis, diz Paty: “Graças às atividades culturais, jovens que tinham tudo para se tornarem delinquentes são hoje bons pais de família”. Esse projetos inovadores começam a ter alguns resultados também em outras aldeias Pataxós graças ao trabalho incansável de Paty no seio da l’ONG Tribos Jovens.

Vanessa e Paty durante a gravação da entrevista na casa dele

Vanessa e Paty durante a gravação da entrevista na casa dele


Jaguatiry com seu arco

Jaguatiry com seu arco


AS TRADIÇÕES SEGUNDO JAGUATIRY

Em Aldeia Velha, Paty nos apresenta a Jaguatiry para que visitemos a Reserva Indígena Pataxó Aldeia Velha. Percorremos com grande prazer uma trilha nesse pedaço preservado de Mata Atlântica. Por curiosidade, perguntamos a nosso guia por que ele usa aquele adorno de penas. Jaguatiry nos explica: “Visto-me assim para me identificar com minha comunidade Pataxó. Se me vestir normalmente, não poderão me diferenciar dos outros.” Também comenta: “Na floresta, sempre andei com meu arco. Um símbolo de nossa cultura e um meio de defesa.” As penas coloridas no meio do cocar significam que nosso guia é um chefe de sua aldeia.

4-Humains-Portraits-Jaguatiry-Pataxo-Aldeia-Velha-Arrial-Ajuda-Bahia-Bresil©TerraTributa

Durante essa caminhada de duas horas, Jaguatiry nos explica alguns métodos tradicionais de caça, mas também as virtudes medicinais de certas ervas e árvores. Terminamos o passeio nas cabanas tradicionais construídas no meio da floresta para realizar cerimônias e acolher os turistas. Jaguatiry nos conta, ainda abalado pela emoção: “Passamos quatro meses construindo essas cabanas, eu e mais dois amigos. Um ano atrás, alguém incendiou a cabana principal…” Por que? Por inveja? Um gesto gratuito? As perguntas continuam sem resposta. Uma coisa é certa, até hoje, a relação entre autóctones e não autóctones é problemática, mesmo num país onde o povo é tão mestiçado, onde se misturam as origens portuguesas, africanas, italianas, alemãs e autóctones. Por causa desse gesto estúpido, cujos estragos foram felizmente detidos pela chuva, as atividades da Reserva cessaram há cerca de um ano. Hoje, Jaguatiry e Paty recomeçam aos poucos a reanimar esse lugar encantador.

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Jaguatiry trepado num abrigo para a caça


A COMUNIDADE MÃE

Quando perguntamos a Paty onde deveríamos ficar para melhor compreender a realidade de seu povo, ele nos responde sem hesitar: “Vocês têm que ir a Barra Velha, a comunidade mãe de todas as aldeias. Meu primo é cacique da extensão Pará e os receberá com prazer”. Após muitos esforços através de caminhos de areia, chegamos enfim à casa da família de Ubiratan, sua esposa Anaru e seus quatro filhos Joyce, Ana, Alaice e Uanatân. Encontramos até Paty que está passando lá alguns dias para se reabastecer. “Qual é o papel de um cacique?” – pergunta Vanessa a Ubiratan. “Em nosso povo, cada aldeia é dirigida por um cacique que deve resolver os problemas em seu território. Fui eleito pela comunidade há dois anos e isso representa um grande desafio para mim!” – responde ele.

O cacique da extensão Pará: Ubiratan

O cacique da extensão Pará: Ubiratan


Afim de nos apresentar uma parte importante de sua cultura, Paty pinta os rostos da família de seu primo. Segundo seu site Muka Mukau : « A pintura corporal é um bem cultural de grande valor para os Pataxó. Ela representa parte da história, sentimentos do cotidiano, os bense o sagrado. Por muito tempo, as pinturas foram pouco usadas e quase se perderam. Mas hoje, depois de pesquisas e discussões em comunidade, os Pataxó retornaram a usar a pintura corporal em festas tradicionais e no dia a-dia em apresentações de danças ». Paty nos explica que cada pintura tem seu próprio significado: « as pinturas nos rostos de Ubiratan e de Anaru são o símbolo dos homens e mulheres casados. A das crianças significam que ainda são solteiras ».

Ubiratan, Anaru e seus dois filhos mais novos, Alaice e Unatân

Ubiratan, Anaru e seus dois filhos mais novos, Alaice e Unatân


Depois das pinturas corporais, Ubiratan nos concede a honra de convidar para aquela noite alguns membros de sua família a fim de realizar um ritual de canto e dança chamado awê. Em língua Patxohã, awê representa a força, a união, a alegria, a espiritualidade e, acima de tudo, a conquista. Para os Pataxó, cantar e dançar não é uma simples distração: trata-se, graças ao awê, de entrar em harmonia com o meio ambiente e com o sagrado.

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Ficamos encantados com esse ritual cantado e dançado com o coração. Observamos no entanto que só os mais velhos e as garotas participaram da dança. Por timidez ou desinteresse, os rapazes ficaram apenas olhando e não se vestiram de maneira tradicional. Depois de duas noites na aldeia Pará e duas na Aldeia Velha, retomamos a estrada já com saudade dos Pataxó. Obrigado a Paty e sua família, a Jaguatiry, a Ubiratan e sua família por esses dias cheios de ensinamentos Pataxó !

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Casa tradicional de madeira e barro

Casa tradicional de madeira e barro


AGOSTO DE 2012 Boletim informativo ~ SEGURANÇA NA ESTRADA

Sem capacete. É a primeira constatação que se pode fazer lendo o artigo sobre a morte de um ciclista três dias atrás em Foz do Iguaçu. Em 2007, quando de minha travessia pelo Canadá, eu fazia a mesma coisa, até que um dia uma pessoa parou de carro para falar comigo.

Ela me perguntou « Por que? ». Minha resposta não fazia sentido: conforto, calor, etc. A sua, ao contrário, teve o efeito de um choque instantâneo e duradouro. Todos os dias, essa mulher trabalha com pessoas em readaptação, pessoas que tiveram quedas feias… sem capacete. Obrigado a essa mulher que, tenho certeza, já salvou várias vidas com seu discurso vindo do coração.

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