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MARÇO DE 2013 Boletim informativo ~ CAPOEIRA NO BODE ~ Uma longa luta por uma comunidade sustentável

Uma arte marcial afro-brasileira que ajuda os jovens de uma favela brasileira. Quando a alma e o coração vibram pela educação e pelo esporte, a identidade cidadã e a ajuda mútua dançam ao som dos berimbaus.

Synapse-Capoeira-Sao-Salomao-Recife-Pernambuco-Bresil©TerraTributa (1)

Os jovens do projeto Caxinguelês e dois de seus professores sob os berimbaus.

No coração do Recife, conhecemos o Centro de Capoeira São Salomão e seus fundadores, mestre Mago e sua esposa Izabel. Mestre mago nos conta: “Imaginem, quando minha mãe nasceu, a capoeira ainda era proibida no código penal brasileiro. Ou seja, ainda ontem!”. Essa arte marcial afro-brasileira é uma maravilhosa herança dos escravos africanos. O resultado é da maior beleza e impressionante de assistir.

Em 1940, a prática da capoeira se tornou legal no Brasil. Desde então, essa disciplina se espalhou pelo mundo. « A capoeira é o segundo esporte mais praticado em Israel, precedido por pouco pelo basquete », conta-nos um capoeirista israelense que encontramos no centro São Salomão.

Izabel e Mestre Mago

Izabel e Mestre Mago em ação

No coração da miséria

O Centro de Capoeira São Salomão fica localizado a duas ruas da comunidade do Bode.
Cerca de 20.000 pessoas vivem nesse bairro pobre do Recife. Construídas ilegalmente no início, hoje toleradas e reconhecidas, as favelas brasileiras são melhor organizadas hoje em dia. Por exemplo, a maior parte delas tem luz e água corrente. No entanto, problemas de insalubridade, de drogas, de prostituição, de falta de escolas e de apoio por parte dos governantes persistem nesses bairros construídos principalmente com materiais reciclados (madeira, plástico, etc.)

Casa precária na favela do Bode

A triagem dos mariscos no Bode

Graças a nosso amigo Jorge, um capoeirista do Centro São Salomão que mora com sua família no Bode, conhecemos a pé esse universo tão distante de nossa realidade quebequense. Nossos olhos e nossas rodas já conheceram algumas comunidades pobres do nordeste brasileiro, mas nunca tínhamos entrado no coração de uma favela.

Viramos à esquerda, depois à direita, por uma ruela da largura de nossas bicicletas carregadas. Uma senhora se lava com uma bacia de água. Nós a cumprimentamos e continuamos. Cruzamos então algumas moças lavando os mariscos que em seguida venderão. Quanto mais nos aproximamos do rio, mais a pobreza se faz sentir. A constatação é triste: casas precárias sobre palafitas, lançando suas águas usadas diretamente no rio e toneladas de lixo nas margens. Perto dos barcos, um adolescente joga seu saco de lixo no rio enquanto duas crianças brincam na água suja. O saco boia… até onde?

O rio poluído na favela do Bode

O rio poluído na favela do Bode

« É preciso se ajudar mutuamente, é a lei da natureza. » Jean de La Fontaine

Apesar de sua pobreza, o Bode vibra ao ritmo da cultura afro-brasileira num espírito de partilha e entreajuda. Conhecemos várias casas da religião do candomblé e do maracatu – expressão musical típica de Pernambuco – assim como uma pequena escola de capoeira. Izabel, professora universitária de educação física, especialista em capoeira (tema de seu doutorado), nos explica : « Nessa comunidade em que falta um pouco de tudo, a entreajuda é onipresente entre os moradores. Os restos das refeições sempre são dados aos vizinhos em necessidade ».
Temos uma medida dessa entreajuda quando Tinily nos apresenta seus dois filhos adotados. Coisa corrente aqui quando os pais não têm condições de criar seus filhos.

Jorge, Mãe Allie, Tinily e Vanessa numa casa de candomblé e de maracatu

Os filhos adotados de Tinily

No início do Centro, em 1997, Izabel e Mestre Mago estudaram a comunidade do Bode a fim de conhecer as grandes problemáticas vividas pelas crianças. “As crianças ficam abandonadas a si mesmas quando não vão para a escola. Este era e continua sendo o principal problema”, explica-nos o Mestre Mago. No Brasil, as crianças vão à escola apenas por um período (manhã ou tarde).
Assim nasceu a ideia de criar um projeto educativo ligado à capoeira para esses jovens desfavorecidos.

« Esse projeto salvou minha vida », diz Tinily

Quando estivemos na favela, Tinily nos contou: “Infelizmente, vários dos meus amigos de infância morreram no círculo da droga e da violência”. Essa ex-aluna do projeto Caxinguelês hoje é professora de educação física especializada em capoeira.

Desde 1997, o projeto Caxinguelês permitiu que vários grupos de jovens desfavorecidos entrevissem um futuro melhor. Diferentes lições baseadas no respeito, na paciência e na escuta são assim oferecidas gratuitamente : leitura e escrita, música, capoeira, construção de instrumentos musicais, artesanato, informática, cultura popular e línguas estrangeiras. O ensino visa promover as tradições e os conhecimentos próprios à capoeira, contribuindo também para o processo de educação das crianças e adolescentes da comunidade do Bode. Entre os três professores atuais, dois são ex-alunos cuja vida foi transformada por esse projeto.

Duas crianças se preparam para entra na roda de capoeira

Duas crianças se preparam para entra na roda de capoeira

Esse trabalho colossal é realizado conjuntamente pelo Centro de Capoeira, as escolas e as famílias da comunidade. Por exemplo, em 2010, 40 crianças e adolescentes e suas famílias foram beneficiadas pelo projeto. Em 2013, por uma redução da ajuda financeira internacional, o projeto Caxinguelês só poderá trabalhar com uma turma de 20 alunos no período da tarde. Além disso, a distribuição de cestas básicas às famílias participantes também teve que cessar.

Você sabia ?

No século XIX, as crianças que dançavam nas bandas de frevo se chamavam caxinguelês. O frevo é uma dança típica de Pernambuco, recentemente reconhecida pela UNESCO como patrimônio imaterial da humanidade. Mestre Mago esclarece: “Essa ligação entre a capoeira e o frevo permite reforçar a identidade cultural das crianças. Uma condição essencial para o autorreconhecimento dos jovens como cidadãos.”

TERRATRIBUTA

Missão cidadã de TERRA TRIBUTA

Organização sem fins lucrativos, TERRA TRIBUTA busca prestar homenagem à Terra, às mulheres, aos homens, e testemunhar as mudanças positivas ligadas aos desafios regionais e mundiais.

Essa homenagem se faz através de cinco missões : Testemunhar, Criar, Sensibilizar, Inspirar e Apoiar. Em 2013 e 2014, TERRA TRIBUTA vai apoiar 10 projetos de comunidades sustentáveis, cinco no Brasil e cinco no Quebec.
Como sua primeira iniciativa Apoiar, TERRA TRIBUTA está feliz em contribuir com o projeto Caxinguelês do Centro de Capoeira São Salomão. Uma soma de 1.000 Reais será doada a esse projeto essencial. Obrigado a nossos generosos parceiros que tornaram possível esse apoio a uma comunidade do Brasil.
Obrigado à nossa amiga Audrey que nos fez descobrir o Centro de Capoeira São Salomão.
Obrigao, enfim, a seus fundadores Izabel e Mestre Mago, ao Jorge e a toda equipe de capoeiristas do centro que nos acolheu tão calorosamente.

REFERÊNCIAS

A expedição Brasil 2012-2013 está sendo realizada pelo fotógrafo e escritor Bertrand Lemeunier e por Vanessa Richard, bióloga e eco-conselheira.

AGOSTO DE 2012 Boletim informativo ~ COM IDEIAS E BOA VONTADE

Fábio Silva, nosso primeiro anfitrião Warmshower e alguns amigos estão constituindo uma associação de ciclistas. Nada menos do que 18 razões de ser para a Associação Ciclística Cataratas do Iguaçu! Eis uma delas: contribuir para a preservação do meio ambiente e encorajar ações que favoreçam a viabilidade das comunidades. Longa vida a essa bela iniciativa!

Para saber mais, ler o artigo de 13 de agosto

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