AREIA E BICICLETA: PERRENGUE À VISTA

Um cenário de sonho se apresenta diante de nossas rodas. À esquerda, percebemos a perder de vista dunas de areia esculpidas ano após ano pelo deus do vento. À direita, o oceano Atlântico se oferece para nós em toda sua beleza e imensidão ao som das ondas que se quebram na praia onde pedalaremos. O paraíso? Bom, não exatamente…

De São Luís a Paulino Neves ~ de 4 a 9 de dezembro de 2012 ~ 90 km de bicicleta (Total : 5 408 km em 200 dias)

1ª ETAPE: de São Luis a Barreirinhas

10-Nous-Crevaisons-Maranhao-Bresil-SONY©TerraTributa (1)

Quando acampamos na casa de alguém, temos a sorte de poder tomar banho. Rústico mas eficaz!

Quando acampamos na casa de alguém, temos a sorte de poder tomar banho. Rústico mas eficaz!

Ao deixar a capital do Maranhão, vamos de vento em popa apesar de mais um pneu furado na bicicleta do Bertrand. Depois de 36 km, deixamos a ilha de São Luís e chegamos a duas constatações: a estrada não tem acostamento do lado direito; o trânsito é intenso nos dois sentidos. Nosso futuro próximo se anuncia difícil. Só nos resta pedalar no acostamento da esquerda, evitando os cacos de vidro, os galhos, os pedaços de pneu, os buracos, os pregos, tudo isso num calor escaldante e contra o vento… Algumas horas depois, chegamos finalmente a uma estrada secundária que seguiremos por dois dias até a cidade de Barreirinhas.

2ª ETAPE: de Barreirinhas a Atins de barco

Muito obrigado a nossos simpáticos anfitriões de Barreirinhas: Mão, Cineide e Eduardo

Muito obrigado a nossos simpáticos anfitriões de Barreirinhas: Mão, Cineide e Eduardo

Nascer do sol no pequeno porto de Barreirinhas: ao longe, dá para ver a pequena duna de areia

Nascer do sol no pequeno porto de Barreirinhas: ao longe, dá para ver a pequena duna de areia

Mais de quatro horas de barco para chegar à cidadezinha de Atins

Mais de quatro horas de barco para chegar à cidadezinha de Atins

Ao chegarmos em Barreirinhas, topamos com Mão em sua bicicleta. Sem hesitar, ele nos convida para passar a noite em sua casa. Aceitamos, é claro, e encontramos sua esposa, Cineide, e seus dois filhos, Eduardo e Eduarda. É com deleite que conhecemos o encantador centro da cidade, a pequena duna e o rio Preguiças onde todos se banham.

Mão é guia e nos convida para explorar as belezas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Sem pensar direito no que poderia nos esperar nesse reino de 1.550 km² de areia, aceitamos seu convite. Para chegar a esse remoto recanto, temos que embarcar nossas três bicicletas num barco de pescadores. Eles saem para ficar 7 dias no mar, levando 1.200 kg de gelo e esperando voltar com cerca de 500kg de peixe!

3ª ETAPA: de Atins a Baixa Grande e de volta a Atins ~ 62 km de bicicleta em quatro dias

Nossa base se situa no Canto dos Lençóis entre as dunas e o oceano.

Nossa base se situa no Canto dos Lençóis entre as dunas e o oceano.

É esse o tipo de veículo que os moradores usam, não bicicleta!

É esse o tipo de veículo que os moradores usam, não bicicleta!

Quando o barco encalha na areia, finalmente desembarcamos no escuro numa praia perto de Atins. A maré já está alta e teremos que empurrar nossas casas ambulantes pelos próximos 6 quilômetros. Felizmente, Mão nos dá uma mãozona! Duas horas depois, pousamos nossos « canhões » no restaurante Canto dos Lençóis. Saboreamos um delicioso prato de camarões grelhados e fazemos uma pequena sesta antes de dar uma caminhada nas dunas ao nascer da lua. Tranquilidade total!

As dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses são sempre magníficas, de dia e de noite.

As dunas do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses são sempre magníficas, de dia e de noite.

Uma boa noite de descanso e tomamos a direção do oásis Baixa Grande a fim de descobrir o interior desse parque criado em 1981. Para tanto, pedalamos na praia durante quatro horas e percorremos 20 km. No fim do dia, chegamos ao Rio Negro, totalmente seco nessa época do ano. O melhor momento para visitar o parque é entre maio e setembro, depois da estação das chuvas. Nessa época, incríveis lagos de águas translúcidas se formam entre as dunas de areia. Para ver fotos das dunas e dos lagos: A Sea of Dunes – artigo da National Geographic (em inglês).

O sol se põe, temos que empurrar nossas bicicletas por mais 5 km para chegar ao oásis de Baixa Grande

O sol se põe, temos que empurrar nossas bicicletas por mais 5 km para chegar ao oásis de Baixa Grande

No oásis Baixa Grande, três famílias vivem ao ritmo da natureza. Quando chegamos, à noite, Maria nos diz : « posso cozinhar uma galinha se vocês esperarem pois ela ainda está viva ». No final, devoramos simplesmente um tradicional prato de arroz e feijão e vamos nos deitar em nossas redes!

v

Nossa anfitriã, Maria, que vive com sua família no coração do oásis Baixa Grande

Uma volta difícil…

Mão foi nosso guia na ida, mas nossa lentidão deve tê-lo exasperado: continuamos nosso caminho sozinhos.

Mesmo com pouca bagagem, nossa velocidade não ultrapassa a faixa de 2 km/h!

Mesmo com pouca bagagem, nossa velocidade não ultrapassa a faixa de 2 km/h!

Saímos do oásis às 11h (em pleno calor) esperando chegar na praia às 13h e aproveitar assim a maré baixa para voltarmos a nossa base. O vento ruge em nossos ouvidos : « não sonhem tanto » enquanto a areia afunda a cada passo dizendo « vocês são pesados demais! ». Pela primeira vez na viagem, ouço Bertrand dizer várias vezes : « Não consigo mais… ». Finalmente, percorremos cinco quilômetros em quatro horas exaustivas. Uma vez na praia, encontramos nossa primeira tartaruga marinha, infelizmente encalhada e ao que parece morta por causa de uma rede de pesca. Nosso dia acaba com o pôr do sol numa cabana de madeira e folhas de palmeira onde instalamos nossas redes ao abrigo do vento.

Nosso abrigo para a noite

Nosso abrigo para a noite

Uma péssima noite de sono depois, retomamos a estrada de areia às 3h30 da manhã para chegar a nossa base. De lá, vamos até Atins sofrendo como condenados. Nossa provação na areia terminou! Era o que pensávamos naquele momento …

4ª ETAPE: de Atins a Caburé e a Paulino Neves ~ De barco e 26 km de bicicleta em dois dias

De Atins, o único jeito de chegar a Caburé é de barco. Por trinta minutos, navegamos no rio Preguiças até atracarmos nessa península arenosa. Várias pessoas nos disseram que era fácil chegar a Paulino Neves atravessando a praia num carro 4 x 4. Mas só encontramos ATVs muito pequenos para tanta bagagem. Além disso, o preço, 200 reais, nos impele a tentar de novo a aventura de bicicleta …

SURPRESA! O vento está a nosso favor e percorremos 20 km em quatro horas, uma verdadeira façanha para nossas bicicletas hipercarregadas! Acampamos na praia tendo como repousante cenário a areia soprada pelo vento, as ondas, as estrelas.

Nosso acampamento na praia entre Caburé e Paulino Neves

Nosso acampamento na praia entre Caburé e Paulino Neves

Depois de um refrescante banho matinal, partimos em direção a Paulino Neves. Uma primeira pessoa de carro nos diz « a cidade fica a um quilômetro », pouco mais adiante, outra afirma : « Só mais três quilômetros ». Mesmo diminuindo a pressão de nossos pneus mal conseguimos empurrar uma bicicleta em duas pessoas. Em suma, seis quilômetros magnificamente exaustivos que percorremos em 4 horas!

L’horizon de nos peines…

O horizonte de nossos sofrimentos …

Entre deux efforts, de magnifiques paysages s’offrent à nous.

Entre dois esforços, magníficas paisagens se oferecem a nossos olhos.

Por sorte, logo que chegamos à pequena comunidade de 2.000 almas, encontramos a família Silva Feitosa que nos oferece água fresca e uma laranja. Um momento de pura felicidade! Essa encantadora família nos convida a compartilhar sua refeição e dormir em sua casa, o que aceitamos com alegria.

Muito obrigado à família Silva Feitosa, nossos anfitriões em Paulino Neves: na foto, Roseane e Guilherme

Muito obrigado à família Silva Feitosa, nossos anfitriões em Paulino Neves: na foto, Roseane e Guilherme

Graças à generosidade brasileira, descansamos e retomamos força para novos desafios! Nosso amigo cicloturista de São Paulo, André Pasquali, tinha toda razão quando nos disse : « o povo brasileiro estará sempre ali para ajudar vocês ». Simplesmente obrigado a todas essas famílias que abrem suas portas para nós, seja para uma sesta, seja para uma noite de descanso!

Publicités