« UMA OBRA PRIMA » NO CORAÇÃO DE UM DESAFIO COLOSSAL: BRASÍLIA

As ideias se confundem em minha cabeça. Como escrever um texto que sintetize e apresente a história, os fundadores, a arquitetura modernista, nossos coups de pédale (nossas pedaladas) e nossos coups de coeur (nosso encantamentos), os desafios e as desigualdades da capital do Brasil? Tentativa em menos de 1.500 palavras!

Um velho sonho modernista
Em 1823, um ano após a independência do Brasil, o estadista brasileiro José Bonifácio propõe, sem sucesso, erigir uma capital central a fim de desenvolver o interior do país. Alguns anos mais tarde, o sonho de um padre salesiano que vivia na Itália, vem reavivar o projeto. Conhecido como Dom Bosco, Giovanni Melchior Bosco sonhou que uma cidade próspera, situada na margem de um lago, seria construída entre o paralelo 15 e o paralelo 20 no Brasil.

Finalmente, em 1956, o então presidente Juscelino Kubitschek, conhecido como «JK», decide construir uma nova capital para o maior país da América do Sul. Segundo ele, o projeto audacioso tem por finalidade fazer o país avançar « 50 anos em 5 ».

Santuário e estátua de Dom Bosco

Estátua no Memorial JK (Juscelino Kubitschek)

O Lago Paranoá é um lago artificial de 48 km² situado a leste de Brasília

Os fundadores
Os três principais nomes a reter são: o urbanista Lucio Costa, o paisagista Roberto Burle Marx e o arquiteto, hoje centenário e único sobrevivente, Oscar Niemeyer. Não esqueçamos dos milhares de nordestinos pobres que trabalharam 24h/24 para, do nada, construir em 41 meses essa cidade!

Eixo principal no centro da cidade

No dia 21 de abril de 1960, a capital do Brasil foi transferida do Rio de Janeiro para Brasília. As palavras de Niemeyer exprimem muito bem a visão buscada para essa cidade moderna : « Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein »

Lago diante do Museu Nacional

As 16 colunas curvas e a nave da Catedral Metropolitana

Os 3 arcos da Ponte JK

Brasília e a bicicleta
A capital é organizada segundo as atividades urbanas. Visto do céu, o plano diretor, chamado plano piloto, tem a forma de um avião ou de um pássaro. Assim, a cabine do piloto agrupa os três poderes (executivo, legislativo e judiciário) construídos na Praça dos Três Poderes. As outras zonas têm nomes evocativos como setor dos bancos, dos clubes esportivos, das embaixadas, das residências e dos hotéis, etc.

Cada primeiro domingo do mês, acontece na Praça dos Três Poderes a cerimônia de troca da maior bandeira do Brasil. Vale a pena ver esse ritual de grande pompa e grande barulho, com a aviação brasileira apresentando uma série de acrobacias.

Cerimônia de troca da bandeira

Desfile na Praça dos Três Poderes

À primeira vista, a cidade surpreende por seu porte baixo e suas artérias largas. Sejamos claros, Brasília foi pensada e construída para os carros. Apesar disso, e sobretudo no fim de semana, quando a cidade « se esvazia », pudemos percorrer todo esse lugar fascinante. Estranha impressão a de estarmos sozinhos com nossas bicicletas num eixo de 6 vias! Por outro lado, a partir de segunda-feira, o corra volta a imperar e nossas pequenas bicicletas sofrem um bocado com todo o trânsito. Por sorte, as poucas ciclovias nos poupam de alguns perigos. Mas Brasília precisa ainda de muitos esforços como nas periferias onde a bicicleta é um importante meio de transporte.

Graças a nosso anfitrião, Guilherme Kardel (ver o artigo : 90 horas), descobrimos também um pouco a vida noturna assistindo ao tradicional show de música no Clube de Choro. Ambiente simpático e ritmado! (Ver o vídeo do Guilherme).

Show no Clube do Choro em Brasília

Desafios e desigualdades
Sem falar dos escândalos políticos que estragaram as festividades do cinquentenário da cidade em 2010, os desafios e as desigualdades ainda são muitos em Brasília e no Brasil em geral./span>

Bem no centro da cidade, do alto dos 75 metros da torre da televisão, milhares de luzes cintilam diante de nós. Essa beleza é um pouco perturbadora e paradoxal quando pensamos que o horizonte é construído de barracos e favelas onde se empilham milhares de pessoas pobres. Longe dos objetivos iniciais de uma cidade modelo « sem discriminações sociais e econômicas », as desigualdades hoje são a um só tempo sociais e espaciais.

Uma das vistas da torre da televisão

Em nossa entrevista com Thiago Perpétuo, Coordenador Técnico do ’Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional(IPHAN), tivemos o prazer de encontrar um homem apaixonado por sua cidade natal e ao mesmo tempo realista. Quando perguntamos qual é o seu sonho para o futuro de Brasília, ele nos responde: « Brasília pode significar a continuidade de um sonho de um Brasil melhor e não um sonho ultrapassado que não interessa mais ninguém. Podemos manter esse Norte para um movimento sustentável e mais igualitário para todos. È possível e eu acredito. »

Essa entrevista filmada foi verdadeiramente interessante e vem completar nossos dados de vídeo que nos permitirão produzir até 2014 nossa primeira série de documentários.

Thiago Perpétuo, Coordenador Técnico do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional


Luta contra a pobreza no Brasil

No dia 23 de setembro de 202, o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA) publicou um artigo intitulado « Knowledge is central to overcoming poverty in Brazil ». O Conselho administrativo do FIDA acaba de aprovar um orçamento de 56 milhões de dólares para financiar projetos de redução da pobreza na região Nordeste do Brasil. « Os projetos Dom Távora e Paulo Freire têm os nomes de dois célebres brasileiros, educadores e defensores dos pobres, que utilizavam a educação como instrumento de luta contra a pobreza », declarou o diretor dos programas do FIDA Brasil, Ivan Cossio.

O impacto desses dois projetos incidirá sobre cerca de 80.000 famílias. É uma boa notícia, mas se consideramos que mais de 16 milhões de brasileiros vivem numa extrema pobreza, pode-se dizer que ainda há muitos desafios a vencer.

Dar o exemplo
Depois de uma semana de descobertas, podemos dizer que ficamos agradavelmente surpreendidos por Brasília. Por maiores que sejam os problemas de sua realidade social, histórica e política, Brasília não deixa de ser uma cidade única no mundo por sua arquitetura e seu plano de urbanismo. Ela é aliás a única cidade do mundo construída no século XX a fazer parte do Patrimônio Mundial da UNESCO (desde 1987).

Um dos critérios da UNESCO par essa atribuição é que ela representa uma obra prima do gênio criador humano.
A história o demonstra, o homem é capaz do melhor… e do pior, infelizmente. Mais do que nunca, a educação, a solidariedade, a colaboração e o amor estão no coração de um desafio colossal : reduzir as desigualdades no Brasil e em todo o mundo. Hoje, Brasília, como capital da sexta economia mundial, deve dar o exemplo.

Você sabia?
Depois de ter realizado o primeiro voo humano no espaço em 12 de abril de 1961, o cosmonauta russo Iuri Gagarin visitou no mesmo ano a América do Sul e especialmente o Brasil. Chegando a Brasília, declarou: « Tenho a impressão de desembarcar num outro planeta, não na terra. »

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