Estação tórrida no Pantanal do Sul: A Estrada Parque

Visitar o Pantanal… o sonho de todo biólogo e de todo fotógrafo! Esse território é a maior zona úmida do planeta, ficando 80% submerso por cerca de meses por ano. Os lagos de água doce estão repletos de uma fauna incrível (jacarés, pássaros, capivaras, etc.), em meio a uma floresta tropical seca. Percorremos uma pequena parte do Pantanal do Sul durante a estação seca, diria mesmo ultrasseca, já que não cai chuva há 3 meses. Tórrido Pantanal!

Sexta-feira 14 de setembro a quarta-feira 19 de setembro
Miranda → Buraco das Piranhas → Porto da Manga→ Corumbá
230 km (Total 3742 km em 116 dias)

Temos a péssima ideia de deixar a cidade de Miranda por volta do meio-dia. Erro crasso. Com sofrimento e miséria monto em minha bicicleta com uma sensação de calor que supera em muito os 40 graus. Tomamos a BR-262 que liga Miranda a Corumbá até a intersecção da Estrada Parque, onde uma estrada de terra se adentra pelo Pantanal do Sul por 120 km. Os 6,5 litros de água que carregamos nos ajudam a suportar o calor. Além disso, estou gostando muito do óleo essencial de hortelã-pimenta que nossa amiga Nadyne, apaixonada pelo herborismo, nos deu antes de nossa partida para o Brasil. Ele ajuda a me refrescar e a mentalizar: « sim, seremos capazes de pedalar com esse calor sem sofrer demais (ou pelo menos sem choramingar por isso) ». Temos até o luxo de alguns litros de água gelada nesse ambiente tórrido graças a nossas três garrafas térmicas!

Que surpresa encontrar engenheiros brasileiros, americanos e mesmo canadenses, chegados numa pequena litorina à fazenda onde paramos para dormir a primeira noite. Esse grupo de pesquisa está chegando de São Paulo, analisando o percurso da estrada de ferra até Corumbá. Fico bem acompanhada por esse bando de ferroviários!

Mais uma vez, somos muito bem recebidos por uma família brasileira. Um banho, uma refeição e mesmo um lugar dentro de casa para montar nossa barraca (que usamos mesmo assim dada a presença de cobras venenosas na região). Muito obrigado Sílvia (vestidinho azul) e Leonaldo (camisa vermelha) pela calorosa acolhida!

Nosso primeiro local de observação da fauna do Pantanal! Um tanque cheio de jacarés-de-óculos (Caiman crocodylus) e de pássaros de todos os tipos. Ficamos maravilhados com essa biodiversidade tão facilmente observável e aproveitamos para descansar durante as horas mais quentes do dia.

Revoada de colhereiros rosa

O jaburu (Jabiru mycteria) é o emblema do Pantanal. É o maior pássaro desse território com uma envergadura que pode chegar a 3 metros e um peso médio de 8 kg. É um lindo pássaro que nos acompanhou ao longo de toda Estrada Parque, o mais das vezes em casais.

No fim da tarde pedalamos até a Estrada Parque onde encontramos uma estrada de terra. As pontes se encadeiam a cada quilômetro por um terço de nosso percurso (cerca de 80 pontes em 120 km). Quando há água, podemos observar uma fauna variada que vem bebê-la.

Sem dúvida alguma, rastros de onça (Panthera onca), quase do tamanho da minha mão! No Pantanal, esse animal tem um peso médio de 100kg! Para favorecer sua conservação, os fazendeiros da região são indenizados quando seus rebanhos são atacados por onças.

No pôr-do-sol, quando a temperatura refresca, os jacarés saem dos tanques. Acampamos perto desse lago, na fazenda Arara Azul. Qual não foi nossa surpresa, quando voltamos à barraca, de nos vermos cercados por 3 jacarés num raio de alguns metros… Felizmente, esse réptil não ataca os humanos, mas não nos sentimos muito seguros, não!

Mais adiante na estrada, temos a oportunidade de observar de perto esse cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus), o maior cervídeo da América do Sul. Ao contrário dos vários outros animais vistos antes, este não foge com a chegada de nossas bicicletas. Continua tranquilamente em seu açude até que decide entrar na floresta.

Uma fazenda bem pertinho da estrada, o Pantanal não é apenas um lugar excepcional para a biodiversidade, ele também é habitado pelos pantaneiros e pelos rebanhos de gado. 95% das terras do Pantanal são privadas. Segundo o EMBRAPA-Pantanal, é essencial incluir os proprietários dessas terras na sustentabilidade econômica, social e ambiental da região. Ainda segundo eles, os pantaneiros têm uma produção bovina sustentável nesse território e isso há mais de 270 anos!

5,5 milhões de vacas, 10 milhões de jacarés e cerca de 200.000 pessoas num espaço de 17 milhões de hectares… Um território de uma diversidade inacreditável, do tamanho de Portugal, da Holanda, da Suíçaa e da Bélgica juntos. È possível calcular essa riqueza? O EMBRAPA-Pantanal encarou esse desafio estimando o valor econômico dos bens e serviços desse território reconhecido como Reserva da Biosfera pela UNESCO em US$ 12 bilhões por ano.

Nem sempre é fácil pedalar nas estradas de terra! Quando não é a areia que nos impede de pedalar, são as pedras grandes que deixam a passagem mais difícil. Pelo menos aprendemos a lição de Miranda: alvorada às 4h30, partida por volta das 6h00 até lá pelas 11h00/12h00, pausa à tarde e mesmo uma pequena sesta se o lugar permitir, observação da fauna, caminha bem cedo na barraca e o mesmo no dia seguinte!

Depois de pegarmos o barquinho que permite atravessar o rio Paraguay, chegamos a Porto Manga. Ali encontramos dois simpáticos guias locais, Logan e Israel. Eles nos convidam para um passeio de barco no fim da tarde. Além disso, dizem para montarmos nossa barraca embaixo da casa deles! Aqui, a maioria das casas é construída sobre palafitas por causa da subida das águas no período das chuvas. O Paraguay é o principal rio da bacia hidrográfica que drena toda a região do Pantanal!

Uma anaconda amarela é o ápice desse passeio de barco! Embora seja menor do que aquela que vimos em Bonito. O guia Israel nos deixou com uma pulga atrás da orelha… Segundo ele, essa anaconda é uma cobra domestica colocada ali para agradar os turistas… Ela é alugada por R$ 100,00 por dia por seu proprietário para a empresa de rafting que tem assim um atrativo a mais em seu circuito! É tão bem alimentada que nem se mexe de sua ilha, escondida pela vegetação. Esses brasileiros! Vamos tentar descobrir se é verdade mesmo!

Rui et Izaias em suas montarias na Fazenda Nossa Senhora Aparecida. Obrigado Ruiz e Daiana pela hospitalidade e também a seus dois filhos curiosos e cativantes, Quézia-Jaine e Izaias-Rodrigo!

No final da Estrada Parque, sabemos que morros nos esperam antes de chegar a Corumbá. Por volta do meio-dia, decidimos acampar numa fazenda e deixar para atacar o morro com sua subida de 4 quilômetros na manhã seguinte, e não naquele sol de meio-dia. Sábia decisão, já que, mais uma vez, caímos no lugar certo! Uma família muito simpática nos convida a partilhar sua refeição (o tradicional arroz, feijão e carne) e nos deixa tomar dois banhos nesse dia quente. Tórrido Pantanal!

Para terminar, façam comentários, gostamos muito de lê-los!

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