As montanhas da Serra Gaúcha e o inverno brasileiro

23 de junho, Cambará do Sul – Há 10 dias estamos descobrindo de bicicleta o universo da Serra Gaúcha e vivendo nosso primeiro inverno brasileiro! Depois do calor da costa atlântica de Santa Catarina, abandonamos o oceano para adentrarmos o interior e tomarmos altitude. Pé na estrada!

Antes de deixar o oceano, uma parada nos foi fortemente recomendada por Gabi, amiga de Camille, a simpática suíça encontrada no Campeche. Acampamos portanto uma noite nas terras de uma fazenda ecológica à beira da Lagoa Encantada, no belo município de Garopaba. O fazendeiro, chamado Zezinho, faz parte de uma associação de produtores de farinha de mandioca, Ponto de cultura engenhos de farinha. A farinha de mandioca é mais do que um alimento de base, suas cores e sabores revelam a diversidade cultural da América Latina! Graças a essa nova associação que conecta a história, a cultura, o turismo e a gastronomia, os agricultores podem fazer perdurar esse saber tradicional. Há vários anos, essa herança vem se perdendo cada vez mais. Zezinho nos conta que não muito tempo atrás havia mais de vinte produtores de farinha perto de sua fazenda. Hoje restam apenas 2 ou 3 e a maior parte das terras foi comprada para a construção de imóveis de luxo: um problema territorial cada vez mais presente na costa sul do Brasil.

Zezinho e sua mandioca

Através de estradas asfaltadas de trânsito intenso e de estradas de terra, bucólicas mas mais difíceis, chegamos ao pé da famosa Serra do Rio do Rastro. À nossa frente, uma estrada sobe cerca de 1.500 metros em menos de 15 quilômetros… 5 horas mais tarde – e alguns litros de suor – estamos no topo. Infelizmente, a bruma espessa nos impede de admirar a paisagem tão duramente conquistada. Um pouco decepcionados (perguntem ao Bertrand!), acampamos no belvedere esperando que a bruma se desfaça. Na manhã seguinte, após termos passado a noite em claro por causa de um bando de jovens amantes da música alta e do canto até altas horas da madrugada, a bruma continua lá… E nós continuamos nossa rota.

Serra do Rio do Rastro a meio caminho…

Pedalamos agora na Serra, a 1.400 metros de altitude, sobre colinas e vales onde os gaúchos são reis. Estamos muito felizes com nossos cachecóis, gorros e luvas comprados em Florianópolis… Está provado, o inverno brasileiro pode ser frio e úmido. Decidimos pegar uma estrada de terra de 115 quilômetros que nos levará a alguns cânions. O início desse caminho é difícil, avançamos apenas 38 quilômetros em um dia e meio… Passamos nossa segunda noite de camping numa floresta de araucárias perto do Pico do Monte Negro.

Vanessa e as estradas de terra

No dia seguinte, cansados, sujos e um pouco desencorajados por termos feito tão poucos quilômetros, resolvemos nos dar o luxo de dormir numa Pousada, perto do lugar de nosso camping selvagem. O gerente da Pousada Fazenda Monte Negro, Sr. Domingo Cardoso Pereira, e sua família nos acolhem nesse lugar familiar mantido por eles a cinco gerações (desde 1888). O Sr. Domingo e seu filho Anápio nos falam de sua história e de sua cultura gaúcha. Anápio nos explica que, desde 1999, o turismo rural representa uma grande parte (50 %) de suas rendas, além da criação de gado, e garante a subsistência de toda família, formada por cerca de 15 pessoas. Para eles, preservar a cultura e a natureza é primordial, nesse lugar tranquilo e magnífico da Serra Gaúcha.

Aproveitamos também para visitar o cânion e o Pico do Monte Negro, a montanha mais alta do estado (1403 metros), a 5 quilômetros da pousada. Chegamos a ir lá duas vezes no mesmo dia, a fim de observar a vista sem bruma. Para um dia de férias, acabamos fazendo 20 quilômetros… Mas, sem as bagagens, é outra história! A primeira vez foi a melhor. Foi mágico por alguns minutos, antes que o nevoeiro retomasse seu posto!

O Cânion e o Pico do Monte Negro

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